A circulação de listas de boicote contra comerciantes que seriam de esquerda preocupa empresários e pode configurar crime. A situação começou após o segundo turno das eleições.

O restaurante Chou Noodle Bar, em Itu, no interior de São Paulo, entrou numa dessas listas. O dono e cozinheiro Chou conta que acordou com o celular cheio de mensagens e ligações de amigos avisando sobre o caso. Apesar do susto, recebeu apoio de conhecidos e desconhecidos, de esquerda e de direita. Chou diz que não esconde o posicionamento à esquerda, mas nunca desrespeitou ninguém por pensar diferente.
“A gente mora num país democrático, no qual a gente tem que se respeitar por opiniões. Simples assim. Agora, aparecer uma lista de boicote e o seu estabelecimento estar ali é uma coisa um pouco bizarra, e ainda feita por um lado das pessoas que se dizem de direita, mas que não são, são fascistas, porque estão boicotando. Eles não sabem que também isso é o mesmo caminho para o fascismo e o nazismo?”
Mesmo quem não demonstra posicionamento político acabou caindo em uma lista. Foi o caso da Mercearia Belmiro, de Vitória, no Espírito Santo. O dono, Helder Belmiro, conta que passou por isso em 2022 e imaginava que poderia ocorrer de novo. Diz que não consegue precisar o impacto da lista nas vendas, mas percebe uma redução nos últimos dias. Ele e outros empresários foram buscar a polícia.
“Eu estou tomando remédio para ansiedade. Porque, por mais que eu esteja sendo abraçado por muita gente, é muito difícil, sim. A gente se sente muito decepcionado com a sociedade. Eu me juntei a outros comerciantes que estão na lista, então a gente está procurando uma assessoria jurídica. A gente já procurou a delegacia de Polícia Civil aqui do bairro. O delegado já está tomando algumas providências, sim. Quer descobrir de onde partiu a lista, quem está fazendo a lista circular.”
Em Santos, Zé Luiz Tahan viu em vídeo na rede social que a livraria dele, a Realejo, tinha virado alvo de boicote. Como se posicionou rapidamente e sem agressividade sobre isso, recebeu apoio das pessoas. A publicação que fez teve quase 100 mil curtidas. Para ele, a sociedade está perdendo a capacidade de ver a realidade por causa da ideologia alimentada pelas redes sociais.
“Nós estamos ficando doentes. Porque a gente não consegue mais simplesmente respirar e enxergar o que está acontecendo diante dos nossos olhos. O viés ideológico está turvando a realidade. Eu acho que todos os comércios podem ter sua personalidade, e uma livraria é um lugar de diálogos, um lugar de opiniões, às vezes, contrárias, mas isso não leva para que seja algo violento ou algo no campo da segregação.”
A circulação de listas de boicote pode ser considerada crime contra a honra, ameaça ou difamação, diz o advogado e pós-doutor Antonio Gonçalves.
“Isso claramente é uma discriminação. Então, isso requer cuidado, isso requer denúncia para os canais oficiais. Pode ser feito um boletim de ocorrência na delegacia mais próxima, também pode ser feito um boletim de ocorrência na Secretaria de Crimes Digitais, porque você não tem uma autoria definida nessas listas que têm circulado.”
Em 2025, dois homens foram condenados em São Paulo por criarem listas de boicote contra comerciantes na cidade de Cafelândia por questões políticas.