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Digitais como nunca, jovens ainda protagonizam manifestações de rua

Quando o assunto é democracia e ameaça a direitos sociais, os jovens tomam as ruas e assumem um papel central na transformação político-social. Foi assim com a passeatas contra a ditadura militar, contra o governo Collor de Melo, chegando aos movimentos recentes em defesa da educação pública.  

É inegável a facilidade que a juventude atual tem no mundo digital, onde as plataformas são aliadas no compartilhamento de informações, notícias e mobilização. Mas diante dos desafios impostos pelos algoritmos das chamadas big techs, os espaços das universidades seguem sendo protagonistas, o que acaba ganhando poder de transformação, quando chega às ruas. Essa é a avaliação da Professora de Ciência Política da Universidade Estadual do Maranhão, Sabrina Areco.  

“Esse movimento, quando chega na rua, tem uma capacidade de mobilizar, mesmo, de trazer mais gente. Porque as pautas dos jovens dizem respeito a questões que são universais, bastante generalizáveis. Acesso à educação, o futuro desses jovens. São pautas amplas. O movimento estudantil tem capacidade de mobilizar estratos sociais amplos”. 

Essa é, também, a percepção de quem representa a juventude estudantil. O olho no olho ainda é a estratégia de mobilização mais transformadora. É o que acredita a estudante de ciências sociais da Universidade de Brasília (UnB), Sofia Cartaxo, que também é do grupo Levante Popular da Juventude.  

“É muitas vezes no espaço da educação pública, das universidades, em que as bolhas que a gente vê e vive digitalmente sempre em torno delas são furadas. E isso tem um poder muito grande, porque o algoritmo ele não é imparcial. Eles têm um lado que são das Big Techs que representam essa hegemonia. A universidade pública muitas vezes é a virada de chave para que o jovem saia da sua bolha, que ele consiga experimentar a realidade, a sociedade. E muitas vezes é na universidade pública onde esse jovem consegue expandir sua consciência, sua compreensão da realidade social”.

Para Sofia, é justamente por esse papel das instituições de ensino que as universidades, sobretudo as públicas, são, constantemente, alvos de ataques e de críticas.  

“A gente sabe que o ataque às universidades é uma estratégia desse sistema. Se você consegue invalidar tudo aquilo que traz a possibilidade do povo de sonhar, de se organizar. Porque é no espaço da educação onde a gente consegue avançar com a conscientização do povo. Onde a gente consegue encarar as contradições, refletir sobre elas, mudar, formular, e que a gente muda também a vida concreta, a vida material das pessoas. 

A Professora de Ciência Política, Sabrina Areco, cita o poder transformador e de mobilização das ruas como sintoma de “saúde democrática”.  

“Eles passam por uma experiência também de politização, porque essa experiência na rua ensina os alunos a se organizarem, a se manifestarem. Essas manifestações que ganham bastante alcance são espaços, também, de politização. E tudo isso é sintoma de uma democracia rica, participativa, engajada. De uma saúde democrática, mesmo”. 

A União Nacional dos Estudantes (UNE), tem quase 90 anos e atravessou todos os contextos políticos e sociais do país. É o que cita a presidente da UNE, Bianca Borges.  

“Desde a fundação da UNE tem sido assim. Nós levantamos a campanha o Petróleo é Nosso, em defesa da soberania, em defesa dos recursos naturais do Brasil. Enfrentamos a ditadura militar, construímos as Diretas. Depois o Fora Collor, o Fora Temer. Isso é da própria vocação dos estudantes brasileiros”. 

A poucos passos da juventude, o pequeno João Castiano Mendes, de ONZE anos, seguia pelas ruas de Brasília em mais um ato, ao lado da mãe. Tão novo e convicto na defesa da soberania do Brasil.  

“A gente saiu de ser colônia de Portugal para ser dos Estados Unidos, tanto que no dia da Independência do Brasil, estavam mostrando a bandeira dos Estados Unidos”.

Para Bianca, da UNE, o papel de estudantes das universidades e dos colégios no cenário atual é um resgate ao poder de mobilização estudantil em meio a cenários decisivos ao país. O que não é exclusividade do Brasil, já que as ruas seguem sendo palco de atos em diversos países, principalmente da Europa e da América do Sul.

*Com colaboração dos repórteres Camila Bohem e Pedro Lacerda