A terceira fase da Operação Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (24), teve como alvo Humberto Arthur Tupinambá Neto e Antônio Carlos Freixo Júnior. A operação apura a atuação do crime organizado no mercado financeiro e no de combustíveis. A estimativa é de uma movimentação de R$ 11,6 bilhões.

Humberto Tupinambá é ex-diretor do Banco Genial; e Antônio Carlos Freixo, conhecido como Mineiro, é dono da Entre Investimentos e um dos delatores do Banco Master. Ele, inclusive, já tem acordo de delação homologado pelo Supremo Tribunal Federal na investigação sobre o financiamento do filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mineiro seria um dos responsáveis pelo repasse dos recursos a um fundo nos Estados Unidos.
A operação desta quinta-feira investiga uma estrutura criminosa que teria sido montada para ocultar o controle de uma usina de álcool no interior de São Paulo. Os suspeitos estariam usando para isso, operadores financeiros, fintechs e advogados. O plano era comprar uma distribuidora de combustíveis.
Um total de R$ 100 milhões teriam sido enviados pela organização criminosa para essa compra. Dinheiro que, em questão de minutos, era pulverizado em múltiplas contas e dividido para dificultar o rastreio. As autoridades conseguiram ainda identificar uma operação ligada à usina no valor aproximado de R$ 370 milhões.
Segundo a investigação, “os líderes da organização criminosa, Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Loco; e Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo, tinham um projeto criminoso para a aquisição da distribuidora Terrana” e teriam usado essa estrutura para blindar os imóveis da organização. “Uma sofisticada arquitetura de lavagem de capitais” é o que diz a decisão da Justiça de São Paulo que embasou a operação.
Outro alvo da operação, o advogado Rogério Garcia Peres, sócio da administradora Altinvest, teria movimentado na conta pessoa física dele meio bilhão de reais e remetido para a Entre Payments numa tentativa de ocultar recursos para terceiros. Segundo os investigadores, a Entre Payments usava seus canais financeiros para o crime organizado.
Havia, ainda, um alto índice de movimentação em lotéricas. O Mineiro teria ganhado mais de 500 vezes em apostas. “Sinal de que utiliza a remessa de recursos ilícitos para apostas e o seu retorno se tornava uma etapa fundamental da reciclagem do dinheiro”, segundo a decisão.
Após a operação, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, explicou como era o esquema.
“Então, você veja que você tem uma usina de etanol, uma usina sucroalcooleira, que toma operações, manda dinheiro para fundo de investimento, esses fundos cascateiam títulos e recursos para outros fundos, usam o sistema financeiro — que é quem, de fato, deveria nos informar desse tipo de operação — e agora a gente chega em mais esse elo da cadeia, essa essa empresa Entre, que, claramente, pela documentação do Ministério Público de São Paulo e da Receita, recebe dinheiro do crime organizado, ajuda nessa estruturação, nessa ocultação de patrimônio, de forma que não só uma usina de etanol, mas também uma distribuidora de combustível passasse a atuar no mercado numa concorrência bastante desleal com o setor legalizado, com o setor formal.”
O ministro ainda foi claro: essa “lavanderia do crime” será cada vez mais combatida.
“Essa lavanderia no Brasil, daqui por diante, com os sistemas automatizados usando inteligência artificial da Receita, vão ser mais prontamente identificados, porque são metástases no nosso desenho brasileiro de fundos de investimento.”
A reportagem ainda não conseguiu contato com a defesa dos investigados.
* Com produção de Karina Barbosa.